A Plateia Invisível

Era noite, e a chamada de vídeo tocou. Ele apareceu na tela — o parente querido, aquele com quem a vida não tem dado tempo. Sorriso aberto, olhos cansados, mas presentes. E eu, ali, feito criança que encontra o brinquedo perdido, mergulhei.

Falamos de tudo. Dos dias, dos planos, das memórias que só a gente guarda. A oportunidade era rara, então cada minuto valia por hora. Eu ia emendando uma história na outra, explicando, contextualizando, rindo, repetindo. A língua corria solta, como se o tempo fosse um fio que eu pudesse esticar com palavras.

Até que, lá pelas tantas, ele moveu o celular — um gesto distraído, de quem apenas ajusta o ângulo. E a tela mostrou, por um segundo, o fundo da sala. Havia gente. Duas pessoas, que eu cumprimentara no início, distraidamente, como quem abre a porta e já segue adiante. Elas estavam ali, o tempo todo. Ouvindo. Sem participar. Testemunhas involuntárias da minha efusão.

O coração deu um nó.

Não que eu tivesse dito algo secreto ou grave. Mas algo em mim se contraiu. A intimidade que eu julgava a dois era, na verdade, uma peça aberta ao público. E eu, que tanto prego a arte de conversar, tinha ignorado a regra mais básica do palco: saber quem está na plateia.

O problema não foi o que eu falei. Foi o como falei. Foi a entrega desmedida, o descontrole da quantidade, a urgência de quem quer caber inteiro num intervalo de tempo. A plateia ouviu não apenas as palavras, mas o tom — a alegria, a saudade, talvez até um pouco de carência. E isso, de alguma forma, me deixou nu diante de estranhos que não pediram por isso.

Depois, desliguei a chamada e fiquei em silêncio.

Não me arrependi do que disse. Arrependi-me, sim, do descuido. De não ter percebido que a conversa por vídeo é uma armadilha de intimidade: ela parece privada, mas a vida real está sempre ao redor — no quarto ao lado, no sofá, na cozinha. E o outro, mesmo querido, tem o direito de me proteger, mostrando o cenário como quem diz: “Cuidado, não estamos sozinhos.”

E ele foi prudente. Eu é que não vi o recado.

Penso agora na diferença entre falar e expor-se. Falar é escolher o que dizer; expor-se é dizer sem escolher o ambiente. E o ambiente, hoje, é sempre mais amplo do que a tela sugere.

A conversa é um jogo de tênis, sim. Mas também é uma peça de teatro. E todo ator, antes de entrar em cena, precisa saber se o espetáculo é para uma pessoa ou para uma multidão. Porque, no palco, até o sussurro vira escuta.

Da próxima vez, antes de me lançar, vou perguntar: “Estamos a sós?” Se a resposta for não, vou guardar o que é nosso para um momento nosso. Não por medo. Por respeito — ao que falo, a quem fala comigo, e a quem, sem pedir, se torna ouvinte.

Porque a arte de conversar não é apenas saber falar e escutar. É também saber em que cenário se está. E, quando o cenário é uma tela, a plateia sempre pode ser maior do que a gente imagina.

#cronicas

Os Três Papéis Temporais: Passado, Presente e Futuro

Existem três papéis que as pessoas assumem em relação ao tempo: o do passado, o do futuro e o do presente. Cada um desses papéis desempenha uma função específica na maneira como nos relacionamos com nossa existência e como navegamos pelas diferentes temporalidades da vida.

  1. O Papel do Passado: Este papel tende a ser crítico, avaliador e juiz. Quando assumimos esse papel, estamos constantemente revisando e analisando nossas experiências anteriores, buscando aprender com os erros e acertos. No entanto, o risco aqui é ficar preso em um ciclo de arrependimentos ou nostalgia, o que pode impedir o crescimento pessoal. O passado deve ser um ponto de referência, não um lugar de residência permanente.
  2. O Papel do Futuro: Este papel se manifesta como sonhador, planejador e, às vezes, ilusionista. Quando estamos nesse papel, estamos projetando nossas esperanças, desejos e metas para o que está por vir. É um papel essencial para a motivação e a definição de objetivos, mas também pode levar a uma desconexão com a realidade se não for equilibrado com o presente. Sonhar com o futuro é importante, mas é crucial não perder de vista o que está ao nosso alcance no momento atual.
  3. O Papel do Presente: Este é o papel do “aqui e agora”. Quando assumimos esse papel, nos tornamos observadores de nós mesmos e de nossas ações no momento presente. É no presente que podemos agir de forma consciente e intencional, tomando decisões que impactam diretamente nossa vida. Este é o papel mais importante, pois é nele que temos o maior controle e onde podemos efetivamente moldar nosso futuro. O presente é o único momento em que podemos realmente viver e interagir com o mundo ao nosso redor.

A Oscilação entre os Papéis

Essa oscilação entre os três papéis é natural e até necessária para uma vida equilibrada. No entanto, é essencial que essa transição seja feita de forma lúcida e consciente. Ficar preso exclusivamente em um desses papéis pode levar a desequilíbrios emocionais e existenciais. Por exemplo, viver apenas no passado pode gerar ressentimentos e paralisia, enquanto viver apenas no futuro pode criar ansiedade e desconexão com a realidade.

O ideal é permanecer no papel do presente a maior parte do tempo possível, pois é nele que temos o poder de agir e transformar nossa realidade. Os outros papéis — passado e futuro — devem ser visitados de forma estratégica, como ferramentas para ajustar o rumo de nossa “navegação existencial”. O passado serve como um guia de aprendizado, enquanto o futuro funciona como um farol que nos orienta em direção aos nossos objetivos.

Conclusão

Em resumo, a maneira como nos posicionamos em relação ao tempo — seja no passado, presente ou futuro — tem um impacto profundo em nossa experiência de vida. A chave está em encontrar um equilíbrio dinâmico entre esses papéis, mantendo o foco principal no presente, onde temos o maior poder de ação e transformação. Ao visitar o passado e o futuro de forma consciente e intencional, podemos ajustar nossa rota e garantir que estamos vivendo de forma plena e significativa.

Criatividade e Contextos

A Importância da Atenção e o Conhecimento na Criatividade

A criatividade é mais do que apenas inspiração; é um ato de concentração que requer foco e atenção. A capacidade de se concentrar em uma tarefa ou problema específico potencializa a nossa criatividade, permitindo-nos explorar novas ideias e soluções. No entanto, a criatividade também está intrinsecamente ligada ao conhecimento e domínio do campo de trabalho em que se pretende inovar. Sem um entendimento profundo do contexto, dos argumentos e das ferramentas disponíveis, torna-se desafiador gerar inovações significativas em determinado domínio.

A Relação entre Contexto e Criatividade

O pressuposto contextual da criatividade destaca a importância de compreender o ambiente em que se está criando. Cada campo de trabalho possui suas próprias regras, desafios e oportunidades, e é essencial dominar esses aspectos para impulsionar a criatividade de forma eficaz. O conhecimento do campo de atuação não apenas fornece uma base sólida para a inovação, mas também abre portas para novas abordagens e perspectivas que podem levar a avanços significativos. Portanto, a combinação entre atenção, conhecimento e contexto é fundamental para potencializar a criatividade e alcançar resultados impactantes em qualquer área de atuação.

Criatividade e Trans-formação

A Importância da Criatividade na Transformação

A criatividade é a capacidade de alterar, transformar e até mesmo recriar algo existente. Ela desempenha um papel fundamental na nossa capacidade de inovar e evoluir. Até que ponto criar é um ato puro de originalidade e invenção? Essa questão nos leva a refletir sobre a natureza da criação e se é possível gerar algo completamente novo a partir do nada. A verdade é que mesmo a criação mais inovadora muitas vezes se baseia em inspirações, referências e experiências prévias.

A Relação entre Criação e Transformação

Quem cria, inevitavelmente transforma. A capacidade de gerar algo novo implica em modificar o status quo, seja no campo das artes, da ciência ou da vida cotidiana. Aqueles que desejam promover mudanças significativas precisam exercitar sua criatividade, pois é através dela que novas ideias e soluções surgem. Mesmo a autotransformação, o ato de se reinventar e evoluir pessoalmente, requer um processo criativo de introspecção e ação.

A Necessidade da Criatividade para a Transformação

Sem criatividade, corremos o risco de nos tornarmos meros imitadores ou reprodutores, incapazes de gerar impacto real e significativo. A transformação, seja ela individual ou coletiva, está intrinsecamente ligada ao ato de criar. Na ciência, por exemplo, uma nova descoberta ou teoria é frequentemente descrita como uma nova síntese, resultado da criatividade e do pensamento inovador dos pesquisadores. Portanto, para alcançar mudanças positivas e duradouras, é essencial cultivar e valorizar a criatividade em todas as áreas da nossa vida.

A vida como fluxo de surpresas

La vida te da sorpresas.

Pedro Navaja

A vida sempre surpreende. As calmarias são antessalas de surpresas. Existem dois tipos de surpresas: as boas e as más.

Nesses dias, pensei, ou melhor, escrevi – pois essa é a melhor forma de experimentar meus pensamentos – que o ideal neste momento da minha vida seria integrar meus desejos de individuação, portanto, de realização. Não quero levar frustrações para o outro lado. De alguma maneira, todos sabemos disso, no entanto protelamos.

Ao mesmo tempo, integrar tudo ou quase tudo exige um esforço de lucidez e autoorganização desafiador. Diante da premência e finitude existencial, vale a pena experimentar. Aliás, a vida é uma permanente experimentação que jamais pode ser repetida. Que o diga Heráclito e todos aqueles que vieram depois dele, sabendo disso.

Meu receio é enlouquecer, querendo fazer tudo ao mesmo tempo. Precisamos de técnica. A técnica é, primeiro, dosar a atividade fundamental que exercemos para, depois, aos poucos, ir inserindo e praticando as atividades que me complementam e completam minha individuação.

Segundo, tomar cuidado para não extrapolar qualquer uma das atividades, mesmo a fundamental, pois isso pode se tornar um vírus difícil de tratar. A euforia em uma atividade pode se tornar melancolia em outra. No conjunto da realização das atividades, a condição indispensável deve ser o estado de fluxo. Euforia provoca acidentes emocionais.

A sagrada alternância que deve existir entre o silêncio e o som, entre a atividade e o repouso, entre o dia e a noite, deve ser observada e mantida. Caso contrário, podemos nos perder. Só assim conseguimos fazer a travessia que é a Vida.

Essa alternância, sua prática cotidiana, é uma arte. Praticá-la é o caminho para atingir nossa individuação integrada. Não só em relação a nós mesmos, mas também com os outros.

Pássaros voando estão apenas passando.

Leitura sem registros são apenas pássaros voando. Como as ideias dos autores que lemos, essas estão sempre a voar. É preciso oferecer-lhes posso e aconchego para podê-las conhecer. De resto poderão ser até uma bela contemplação, mas nada além disso.  

Ideias precisam de registros, senão continuam a voar.  Não se trata de entrar numa síndrome compulsiva de anotar todo, como aqueles fiscais de transporte público que devem anotar os ônibus que passam.

Não entanto é preciso valorar as boas ideias, referencia-las e aproveitar o que nos chega como texto, como leitura de mundo. É preciso catar e não desperdiçar aquelas sementes que caem no nosso jardim. De proporciona-lhes um espaço para se reproduzir no nosso canteiro.

Por tanto, mais do que avançar noutras leituras é conveniente anotar as leituras que vamos fazendo no dia a dia. O conhecimento não é uma questão de consumi-lo, mas de degusta-lo. Só assim é possível fazer a sua digestão, ou como dizia Nietzsche; a sua ruminação.

Para isso, convém que as leituras que fazemos cotidianamente sejam minimamente sintetizadas, guardadas como sementes, devidamente identificadas, de modo que na hora certa, no dia menos esperado, possam ser germinadas nos  canteiros de textos onde cultivamos nossas ideias e experiencias

1. Tudo alcança a perfeição

1.  Tudo já está no jeito, mas ser uma “pessoa” talvez seja o mais difícil.  Hoje se requer mais para se formar um sábio do que antigamente para formar sete; e ainda mais complexo é se aperfeiçoar apenas um homem do que  toda uma cidade nos tempos passados.  

Baltasar Gracián